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Angelita Habr Gama
Área de atuação: medicina
Lugar onde trabalha: Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)
Fonte indicadora: Milu Villela, diretora do Museu de Arte Moderna de São Paulo
Trabalho que desenvolve
Angelita Habr Gama é médica, professora titular e chefe do departamento de gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Pioneira em uma época em que as mulheres não costumavam seguir carreira, especialmente em Medicina, ela se dedica ao estudo das doenças do cólon, reto e ânus. Graças ao seu empenho, a Coloproctologia deixou de ser uma subespecialização das cirurgias do aparelho digestivo para se tornar uma disciplina própria em 1995. Ela ainda contribuiu para a prevenção e o tratamento do câncer de intestino. Além de clinicar, a médica dedica grande parte de seu tempo à vida acadêmica. Foi ela quem elaborou, ao lado de outros especialistas, o programa de pós-graduação na área de cirurgia digestiva da FMUSP, aprovado em 1988. Hoje, coordena esse programa, por onde já passaram mais de sessenta médicos.
Panorama da área
Segundo dados fornecidos pela Faculdade de Medicina da USP, ainda hoje há uma grande discrepância no número de homens e de mulheres entre os professores titulares. Apenas quatro entre os 47 professores são do sexo feminino. Na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), antiga Escola Paulista de Medicina, trabalham 49 professores titulares, mas apenas quinze mulheres têm o mesmo posto. Nas instituições médicas dessas universidades, a situação não é muito diferente. De 42 cirurgiões do Hospital das Clínicas da USP, quatro são mulheres. Já no Hospital São Paulo, ligado à Unifesp, a desproporção é ainda maior com somente uma mulher em uma equipe de dezoito pessoas. Se nos postos superiores o número de homens supera muito o de mulheres, o mesmo não se pode dizer dos profissionais em início de carreira. De acordo com estudo realizado pelo Ministério do Trabalho entre outubro de 1996 e setembro de 1997, dos 228 000 postos gerados no país em várias áreas para candidatos com pelo menos o Segundo Grau completo, mais da metade foi conquistado por trabalhadoras. Elas também superam os homens nas vagas para dentista, veterinário e médico. Do total de contratados na mesma época, 83% eram mulheres. Entre as doenças que atingem o intestino estão as hemorróidas, a incontinência fecal e o câncer. Para este ano, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima 19 050 novos casos de câncer de cólon e reto. Esse tipo de câncer é o sexto em número de incidências no país, ficando atrás apenas dos de pele, de mama, de colo de útero, de estômago e de pulmão, mas é o terceiro em número de casos letais. Ele provocará cerca de 5 950 mortes, perdendo apenas para o câncer de estômago e o de pulmão.
Perfil da candidata
Filha de libaneses, Angelita Habr Gama nasceu na Ilha de Marajó, no Pará, onde morou até os 6 anos. No início da década de 50, decidiu que seria cirurgiã, contrariando o destino de todas as mulheres instruídas de sua família: o magistério. "Ela foi extremamente ousada para a época", diz Antônio Atílio Laudanna, professor titular de Gastroenterologia do Hospital das Clínicas. "Só os homens faziam cirurgia, pois é uma área que exige muita dedicação e preparo físico." Em 1952, prestou vestibular para a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, onde se classificou em oitavo lugar entre 590 candidatos. Para poder pagar os livros da faculdade, fez peças de crochê para vender, deu aulas em cursinhos e trabalhou como propagandista de laboratórios farmacêuticos. Em 1964, casou-se com o também cirurgião Joaquim José Gama Rodrigues. O casal decidiu que não teriam filhos porque queriam dedicar-se integralmente à profissão.
Histórico da carreira
Em 1958, Angelita tornou-se a primeira médica residente em Cirurgia Geral do Hospital das Clínicas. Três anos depois, estava no respeitado St. Mark¹s Hospital, em Londres, novamente como a primeira cirurgiã da história daquela instituição. Lá, durante um ano, especializou-se em doenças do cólon, reto e ânus, que viriam a ser o foco de sua carreira. No início dos anos 70, começou a lecionar na Universidade de São Paulo, onde traçou uma brilhante carreira acadêmica. No ano passado, assumiu o cargo máximo da docência ao receber o título de professora titular em Cirurgia. Mais uma vez, ela era a primeira mulher na história da universidade a alcançar esse posto. Hoje, acumula os cargos de professora titular, de chefe do departamento de gastroenterologia e de diretora do serviço de coloproctologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Angelita também atende pacientes em sua clínica particular. Ao todo, na clínica e nos hospitais, já atendeu mais de 34 000 pessoas com problemas do cólon, reto e ânus e fez cerca de 10 000 operações em suas três décadas de profissão. "Ela é uma das cirurgiãs com maior experiência no trato cirúrgico do câncer do intestino grosso e reto", avalia Boris Barone, professor adjunto da disciplina de Gastroenterologia Cirúrgica da Universidade Federal do Estado de São Paulo. Angelita, que é também membro de quinze sociedades médicas no Brasil e de 22 no exterior, publicou 172 trabalhos em revistas científicas nacionais e internacionais.
Inovações e contribuições
"Não se pode falar em estruturação e avanço da coloproctologia no Brasil sem citar o nome da doutora Angelita Habr Gama", constata o professor Antônio Laudanna. "Hoje, ela é uma das maiores referências dessa área." A médica contribuiu, por exemplo, para a evolução de uma técnica de prevenção do câncer do intestino que consiste na retirada de certos pólipos que podem se revelar pré-cancerígenos. O professor Barone destaca a contribuição de Angelita no tratamento de doentes quando esse tipo de câncer já está instalado: "Como cirurgiã, ela desenvolveu técnicas de preservação de parte do órgão tornando a operação menos mutiladora. Isso também permitiu a muitos pacientes viver sem a utilização das bolsas coletoras de fezes".
Agente multiplicador
A cirurgiã participou, como orientadora, da elaboração de mais de 78 teses de mestrado e doutorado. Proferiu cerca de 100 aulas nas disciplinas de pós- graduação na Faculdade de Medicina da USP e aproximadamente 250 nos cursos de graduação. Nos últimos quatro anos, facilitou o acesso a mais de 260 estagiários para aprimoramento profissional em Coloproctologia. "Uma das minhas principais tarefas é contribuir para a formação de profissionais competentes que possam levar todo esse conhecimento adiante", diz Angelita. No início da década de 70, ela idealizou o primeiro curso prático e teórico de colonoscopia, exame do interior do colón, no Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo. Nove anos depois, organizou o primeiro seminário nacional de detecção do câncer de estômago e intestino grosso. Em 1988, criou o primeiro curso continuado em Coloproctologia do país, ministrado na FMUSP.
Comentário da candidata
"Para mim, a cirurgia é mais do que uma profissão. É uma missão. Por isso, o fato de ingressar num mundo tipicamente masculino não me assustou. Mas, para vencer, tive que trabalhar à altura dos homens que mais se dedicavam. Então, professores e colegas reconheceram em mim uma pessoa que estava ali não para brincar, mas para trabalhar, produzir e colaborar. Naquela época, achei que a maternidade seria incompatível com meu crescimento profissional. Até hoje não me arrependo dessa opção. Só o tempo dirá se eu estava certa." |