23 Abr 2014

   
Neurálgias
Prof. Dr. Nelson Colombini
 

Neuralgia do trigêmeo ou "tic douloreux"
A neuralgia do trigêmeo, designada de prosopalgia por Fothergill e de tique doloroso da face por Trousseau, pode ser sintomática de diversas lesões , porém dificilmente se chega a descobrir qual é a sua etiologia: a dor acaba resumindo toda a enfermidade. A etiologia dessa neuralgia é freqüentemente desconhecida; são citados vários fatores , como traumatismos e infecções dos dentes da mandíbula, ou dos seios paranasais , sendo que na grande maioria dos casos não há doença orgânica do quinto nervo ou do sistema nervoso central.

Foram relatadas alterações degenerativas ou fibróticas do gânglio de Gasser, mas essas são muito inconstantes para ter relações de causa e efeito nas dores . Algumas vezes foram encontrados tumores ou vasos anômalos comprimindo o nervo trigêmeo, e raros casos de dores típicas da nevralgia em pacientes portadores de lesões do tronco por esclerose múltipla, ou lesões vasculares que acometem sua raiz descendente. Sugere-se que as crises de dor facial são devidas a descargas paroxísticas do núcleo descendente do nervo; supõe-se que as descargas relacionem-se com excessivo afluxo de impulsos ao núcleo do nervo; essa hipótese é sustentada pelo fato de que os ataques típicos da nevralgia do trigêmeo são aliviados pela secção do nervo grande occipital e auricular, e que um episódio de nevralgia do trigêmeo pode ser interrompido pela injeção intravenosa de difenilidantoinato de sódio.
É a mais freqüente de todas as neuralgias ; instala-se geralmente na meia-idade ou mais tarde, mas pode ocorrer em qualquer idade, sendo rara antes dos 35 anos . A incidência é discretamente maior no sexo feminino.
Na sua forma pura a neuralgia do trigêmeo é facilmente diagnosticada pelas dores . As dores são bruscas e com brevidade de um raio; às vezes a descarga é única, mas freqüentemente se apresenta em salvas que duram alguns segundos , durante os quais o enfermo fica imobili zado pela intensidade da dor que é aguda ou terebrante, levando a mão a face enferma sem no entanto tocá-la. A crise finda tão bruscamente quanto começa. A freqüência dos acessos dolorosos é variável, e se agrupa em salvas separadas por remissões , Às vezes prolongadas na forma chamada subentrante, e se repete a cada 4 ou 5 minutos e seu número diário pode ser da ordem de várias dezenas . A reaparição das crises só se desencadeia por causas provocadoras como: mastigação, lavar ou coçar a face, movimentos faciais da fala, etc. Em alguns pacientes , mesmo com todos esses fatores desencadeadores , existe uma zona eletiva cuja estimulação desencadeia a crise ("trigger zone"ou zona gatilho); o enfermo conhece essa zona e as proteje de qualquer contacto. Notamos que a região dolorosa fica às vezes de aspecto seborréico, pela dificuldade de lavar ou esfregar. A dor é estritamente limitada a um ou mais ramos do nervo trigêmeo e não se difunde além do território inervado por esse nervo, sendo que a segunda e a terceira divisão do V par é mais freqüentemente acometida de dores , a primeira divisão é afetada primariamente em menos dos 5% dos casos de longa duração; todas as divisões podem acabar afetadas em 15 % dos casos .
Os pacientes podem estar emagrecidos e com fácies de sofrimento; alguns extraíram todos os dentes na tentativa de obter alívio; não há perda sensitiva objetiva e a função motora do nervo permanece normal. A nevralgia do trigêmeo deve ser diferenciada de outros tipos de algias da face, principalmente ocasionadas par infecções dos dentes e/ou seios da face. Freqüentemente são notados casos de pacientes com infecções dentárias encaminhados ao neurologista, com diagnóstico de neuralgia do trigêmeo; nesses casos o papel dos dentes pode ser explicado derramando-se água fria sobre eles e as gengivas vizinhas . No herpes zoster a dor pode simular, mas o surgimento de vesículas sela o diagnóstico. A nevralgia glossofaríngea pode ser confundida com a nevralgia do terceiro ramo do trigêmeo, contudo o diagnóstico pode ser estabelecido vaporizando-se anestésico sobre as regiões das amígdalas . Os tumores do gânglio de Gasser bem como os tumores e outras lesões do ângulo pontocerebelar podem produzir dores no rosto.
A dor facial oriunda das lesões desse nervo difere das outras por ser contínua e durar várias horas ou dias ; ocasionalmente ela pode ser paroxística. Áreas de anestesia no rosto, abolição do reflexo corneano, atrofia e fraqueza dos músculos mastigadores , junto com sinais de acometimento de outros nervos cranianos , excluem a neuralgia pura do trigêmeo das demais dores faciais remitentes ou persistentes de cabeça, rosto e pescoço estas diferem da neuralgia do trigêmeo e tem sido classificada sob o termo de nevralgia facial atípica. Podem ocorrer dores no rosto em pacientes que sofram processos degenerativos das articulações temporomandibulares (ATM), resultantes de mal oclusão dentária; os sinais radiológicos da ATM ajudam a estabelecer o diagnóstico. A evolução caracteriza-se por remissões na maioria dos casos . Os paroxismos dolorosos mantêm-se presentes por várias semanas ou meses para então cessarem espontaneamente. A remissão pode ser curta ou as dores desaparecerem inteiramente durante meses ou anos ; com o passar do tempo existe a tendência das dores ocorrerem em intervalos menores (mais freqüentemente). No tratamento as dores são tão intensas que não melhoram com analgésicos , exceto a morfina que está contra-indicada; inicialmente se demonstrou que a injeção venosa da difenilidantoína proporcionava alívio imediato da dor. Posteriormente descobriu-se um outro anticonvulsivo mais eficaz e menos tóxico; produz remissão completa ou total dos sintomas em uma alta percentagem dos casos ; quando usada isoladamente ou associada. O tratamento cirúrgico usado para o controle da nevralgia do trigêmeo consiste na injeção de álcool no nervo ou no gânglio, secção parcial do nervo na fossa média ou na posterior, descompressão da raiz ou a tractotomia bulbar. O número dessas operações demonstra que nenhuma delas é totalmente satisfatória, pelo fracasso no alívio das dores , e pelas complicações cirúrgicas . Atualmente a cirurgia mais aceita é a exploração de todo o trajeto do nervo trigêmeo na fossa posterior para descompressão de regiões onde uma artéria ou outras estruturas anatômicas estejam comprimindo o nervo.

 
Copyright © 2001-2014
Textos com reprodução autorizada
desde que citada a fonte

Quem somos  |  Nosso Staff Médico  |  Pesquisa de Opinião  |  Monitoramento via Web
Editorial da semana  |  Conteúdo em destaque  |  Notícia em foco  |  Ponto de vista