20 Nov 2008

   
Conceito
Dr. Osmar de Oliveira
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Na verdade, doping e dopagem são duas palavras que têm significado diferente. O doping é a própria substância que pode ser usada com fins médicos e a dopagem é o uso em atletas com a finalidade de levar vantagem no desempenho esportivo. Com o passar do tempo, a palavra doping foi ganhando força pelo próprio uso e hoje, doping e dopagem são praticamente sinônimos .
A origem do nome "doping" é incerta. Os árabes o chamavam "cat", derivada de cathine ou catina dos ass írios , uma planta de propriedades estimulantes . Os italianos usaram palavras ou termos diversos , como "drogaggio", "ergogenia medicamentosa", "melassanera" e "bombe chimiche".Os americanos sempre preferiram falar em ergogenia. Os franceses passaram do "topethe", para a "dynamite"até chegar à "dopage".
No dialeto africano Kafir, já existia a palavra "dop"significando uma infus ão estimulante de plantas medicinais usada em festas religiosas . No inglês encontra-se "dope"com o significado de lubrificante ou verniz especial para aviões e o verbo "to dope", vocábulo usado nas corridas de cavalo para indicar a administração de drogas ao cavalo para melhorar o seu rendimento. A palavra "doping" aparece pela primeira vez, em um dicionário inglês no ano de 1889 significando uma mistura de narcóticos utilizada em cavalos puros -sangue. Os antigos dicionários holandeses apresentam "dooper" = batizar e "under dooper" = utilização de drogas . Os compêndios franceses falam em "duper" = trapaça, pequena fraude. Talvez dessa palavra eles tenham tirado a "dopage"e daí tenha vindo a dopagem e depois o doping dos americanos .
Nos J.O.do México em 1968, o COI definia complexamente a dopagem. É a administração ou o uso de agentes estranhos ao organismo ou de substâncias fisiológicas em quantidade anormal, capazes de provocar no atleta, no momento da competição, um comportamento anormal, positivo ou negativo, sem correspondência com sua real capacidade orgânica e funcional. Na verdade, o COI precisava definir a dopagem, mas esbarrou de cara nessa definição complexa, embora qualquer outra definição fosse muito difícil para a época. Isso porque a definição deveria envolver aspectos multiconceituais de farmacologia, toxicologia e de clínica, não se esquecendo dos aspectos éticos , educativos e de costumes regionais .
Para o COI, soberano e rápido em suas decis ões durante Olimpíadas , nunca houve problemas . Ele comunica o resultado positivo, faz a contraprova, retira a medalha, altera classificações de provas e pronto. Mas quando a lei passa a ser utilizada por federações e confederações ela ganha outra magnitude porque permite o envolvimento jurídico da questão e as defesas buscam argumentos muitas vezes irreais dentro da clínica médica. Sem falar em julgamentos errôneos calcados em fatores políticos , de marketing e de influências econômicas . Alguns Comitês Olímpicos Nacionais tentaram resolver essa questão com alterações na definição de dopagem, como os alemães que a definem como "o uso ilícito e nocivo de tudo aquilo que possa alterar o comportamento do atleta em competição". Por mais simples e objetiva que ela possa ser, a argumentação jurídica poderia indagar, por exemplo, se a presença de maconha ou cocaína numa amostra de urina poderia afirmar com certeza se ela estava fazendo efeito no momento exato da competição ou se os metabólitos identificados não significavam que o efeito havia acontecido alguns dias antes . Por isso, algumas regulamentações mais recentes , já não se atrevem a definir doping e de uma maneira simples iniciam suas regras com "estão proibidas as substâncias a seguir relacionadas ".
Em 1998, a FIMs (Federação Internacional de Medicina Esportiva) faz um posicionamento oficial sobre o assunto e publica em seu boletim:
Doping nos esportes é o uso proposital ou não intencional por um atleta, de uma substância proibida ou métodos proibidos pelo Comitê Olímpico Internacional. A FIMs apóia a proibição do doping para proteger os atletas de: 1) Uma vantagem desleal que pode ser obtida por atletas que utilizam substâncias ou métodos proibidos para melhorar o desempenho. 2) Os poss íveis efeitos colaterais prejudiciais à saúde que algumas substâncias e métodos podem produzir.
Além das conseqüências em termos éticos e de saúde que estão envolvidas com o doping, reconhecem-se as potenciais implicações legais . A distribuição de várias substâncias proibidas (ex: esteróides anabólicos ), se não por uma razão medicamente justificável, é contra a lei em vários países . Estimular ou auxiliar atletas a utilizar tais substâncias ou métodos é antiético e, portanto, igualmente proibido.


O DOPING TECNOLÓGICO
Este é um capítulo complexo que envolve todas as formas de dopagem que não sejam aquelas por substâncias proibidas pelas regulamentações nacionais e internacionais . Geralmente, envolvem recursos utilizados com o fim de levar vantagem desonesta ou de acarretar extrema desvantagem ao advers ário.
Aqui estão recursos tecnológicos , bioquímicos , psicológicos e outras técnicas de trapaça à ética desportiva. Não há uma classificação ou uma relação do que é proibido. Mas toda trapaça deliberada tem que ser punida severamente em nome da ética desportiva. Em muitos casos , a comprovação é difícil. Mas existem técnicas psicológicas como a hipnose em que não há um consenso sobre se lícita ou não.
1) Dopagem bioquímica: autohemotransfus ão.
Já foi um procedimento muito usado. Consiste em se retirar de 0,5 a 1 litro de sangue, trinta dias antes da competição e reinjetá-lo na véspera. Qualquer organismo fabrica nesses trinta dias a quantidade de sangue que foi retirada. A devolução do sangue à circulação significa que o atleta irá competir com uma quantidade adicional de sangue e, portanto de glóbulos vermelhos , em última análise de oxigênio com conseqüente vantagem na capacidade aeróbica. O sangue é guardado numa temperatura de 4o C e sua inoculação é feita com um cateter porque ele fica muito denso. É evidente o perigo de morte por embolia. Foi o que aconteceu com Luck Derick em 1991. Ele era jogador de futebol do Bruges , da Bélgica e o médico que realizou a autohemotransfus ão havia sido seu companheiro na mesma equipe. Esse caso, as dificuldades de guarda do material, o risco de contaminação do sangue, dentre outros fatores contribuíram para o abandono dessa técnica.
2) Dopagem física: estimulação por eletrodos .
Esta é uma técnica que não se pode provar que foi feita, mas aos atletas se recomenda que não se submetam a ela. Consiste em colocação de eletrodos nas inserções tendinosas de um músculo ou de um grupo de músculos , seguida de impulsos elétricos superiores a 50 volts . A violenta contração isométrica que se segue permite hipertrofias musculares muito rapidamente, mas o risco de ruturas musculares graves e principlamente tendinosas é extremamente alto. Este método foi muito usado na ex-União Soviética.
3) Fraudes tecnológicas .
O esgrimista russo Boris Onischenko, nos J.O. de 1972, usou um minúsculo engenho eletrônico na empunhadura da sua espada, que marcava toques no seu advers ário, que não existiam. Foi expulso dos Jogos e punido por atitude antiesportiva pela Federação Internacional de Esgrima.
Anos atrás , quando as corridas de automobilismo ainda não tinham as rigorosas inspeções das máquinas como hoje, sabe-se de casos em que as equipes usavam um reservatório de água abaixo do chassis tornando o carro mais pesado e dentro dos limites da pesagem. Dada a largada, o piloto acionava um pequeno dispositivo e a água era expelida fazendo com que o carro ficasse mais leve por todo o resto da prova.
4) Gestação programada
Esta manobra também está abandonada, mas foi muito utilizada entre as décadas de 60 e 80, mais difundida nos países do leste europeu. A inoculação de espermatozóides era feita em laboratório aproximadamente três meses antes da prova principal, fazendo com que a atleta competisse no terceiro mês de gestação, aproveitando-se do fato de que havia um aumento da quantidade de glóbulos vermelhos . Depois da competição era feito o aborto já programado. O COI chegou a pensar em proibir a competição de mulheres grávidas , mas recuou porque com isso estaria se intrometendo na programação familiar em mulheres que não tentavam com a gravidez obter vantagens esportivas .
5) Outras trapaças
Nos regimes comunistas era comum em nadadores a inoculação de ar pelo ânus imediatamente antes das provas para facilitar a flutuação na água. Em muitos países não comunistas , esta trapaça também foi usada e hoje é técnica abandonada, pelo incômodo abdominal e pelas novas técnicas nos treinamentos de natação.
Na década de 80, em competição de atletismo na Costa Rica, uma menina acometida de hepatite foi substituída por sua irmã gêmea que chegou em segundo lugar na prova. Descoberta a fraude, foram suspensas de qualquer competição por toda a vida, muito mais numa punição moral e educativa.
No futebol e no basquetebol, são vários os fatos conhecidos de pequenos aumentos ou diminuições nas dimens ões entre as traves e nos aros . Na década de 80, em decis ão do campeonato americano universitário, o técnico local diminuiu em apenas um centímetro o diâmetro de um dos aros , mudando suas táticas de arremesso conforme atacava para este ou aquele aro. Venceu o jogo, depois com resultado anulado pela Liga e recebeu uma suspens ão perpétua para trabalhar com o basquetebol.
6) Manipulação do material de coleta
Esta é uma trapaça que tem sido combatida com muito rigor por todas as entidades desportivas . A pena máxima de suspens ão tem sido aplicada. O que os atletas fazem com mais freqüência é a adição à urina, de saliva, cerveja e uísque. As alterações do pH são tão evidentes que é fácil a identificação da fraude. Sabe-se que muitos atletas usaram frascos plásticos com urina de outra pessoa, presos na axila e um tubo plástico chegava até o pênis onde era preso com uma fita transparente; o atleta que informava sua incapacidade de micção, esperava o cansaço ou o descuido do médico coletor para através de uma simples manobra, ceder a urina que não era sua. Pior ainda e de uma maneira antifisiológica muito perigosa, o atleta urinava em seu vestiário e depois lhe passavam um cateter pela uretra para receber urina de outra pessoa e depois simular uma micção normal no ato de coleta. Por isso, todas as deliberações atuais , solicitam que as salas de coleta sejam amplas (para se evitar a troca de frascos de coleta), que não se permita o ingresso na sala além dos atletas e seus médicos e que os atletas estejam praticamente nus no momento de ceder a urina.

 
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