30 Out 2014

   
O Exercício da Sexualidade Durante Gestação
Sociedade Brasileira de Estudos
da Sexualidade Humana

Entre os mamíferos não humanos a cópula depende de um momento de receptividade do animal, o "estro", a ovulação, período no qual a fêmea recebe e aceita o macho, permitindo a penetração. Na maioria das vezes a fêmea coberta engravida. Nos animais , a fêmea grávida não tem interesse
sexual e nem permite a cópula.
Na espécie humana a atividade sexual não visa especificamente a procriação, embora a atividade hormonal seja fundamental para a reprodução, o contato sexual é precedido pelo desejo e necessita embora, não absolutamente, da excitação e do orgasmo. O coito durante a gravidez entre os humanos pode ser realizado sem maiores impedimentos mas costuma, com freqüência, ser reprimido pelos médicos e pelos costumes o que reforça as forças culturais inibidoras da sexualidade.
Os manuais e tratados clássicos de obstetrícia pouco ou nada dedicam a este tema, no entanto Masters e Jonhson estudaram 111 mulheres entre 21 e 43 anos investigando, a atividade sexual afetada pela gravidez.

Segundo estes autores no primeiro trimestre da gravidez o interesse sexual teve grande variação, indo desde a rejeição voluntária de todas as formas físicas de atividade sexual até o aumento do interesse e da prática sexual.
No segundo trimestre, chamou a atenção um elevado grau de atividade sexual marcada pelo interesse, pela imaginação e por sonhos de atos sexuais . A procura do coito pela mulher foi exigência significativa desta época da gravidez. Curioso é que 4 entre 19 mulheres estudadas nunca haviam apresentado interesse sexual em sua vida. A masturbação passou a ser uma
prática usual nas que não tinham parceiro, muitas vezes com aumento da freqüência quando comparada ao 1º trimestre e a época anterior a gravidez. Os autores também observaram um aumento da conduta sexual objetiva e da realização multi-orgásmica do coito. Os sonhos eróticos foram mais numerosos e frequentes .
No terceiro trimestre, as mulheres grávidas pela primeira vez tiveram forte redução na freqüência do coito, várias delas , por recomendação médica formulada no sentido de absterem-se de relações sexuais . Nas mulheres que já haviam tido filhos a reação foi semelhante, porém em menor intensidade do que nas primíparas . Neste trimestre, houve uma acentuada queda na freqüência da atividade sexual genitalizada. Muitas mulheres declararam que aceitavam o coito neste período para satisfazerem seus maridos .
Na prática, os autores relatam uma redução de 40 a 60% na atividade sexual dos casais durante a gravidez. Os poss íveis fatores que contribuem para a redução do coito no 1-º trimestre seriam: medo de perder a gestação, rejeição à gravidez e/ou ao parceiro, problemas físicos (náuseas , vômitos , azia, cefaléia, etc...), aconselhamento médico e proibição religiosa. No 2º trimestre o aumento do desejo seria explicado pela reafirmação da feminilidade, segurança de consolidação da gravidez com desaparecimento do medo de abortar. Já a redução no 3º trimestre correria por conta da modificação corporal com eventual queda da auto estima pela não identificação de sua imagem corporal com a sexualidade. Outros fatores seriam a queda de interesse do parceiro posto que é comum a dissociação entre sexo e maternidade, a ansiedade e medo do parto e o aconselhamento de restrição feito pelo médico.
Assinalemos ainda a mudança do corpo da mulher grávida; seus pensamentos medrosos e ansiosos ; a nova dinâmica no relacionamento do casal; a falta de conhecimento, por parte dos homens , sobre o corpo feminino e sua mudança durante a gestação; as crenças masculinas de que a penetração peniana afeta o bebê ou a "bolsa d'água". Enfim, tudo indica que a redução da atividade sexual durante a gestação tem como causa uma s érie de coisas que podem ser
desmitificadas através de informação sobre a sexualidade da grávida..
Os estudos sobre a sexualidade na gestação mostram resultados variáveis . Em nosso pais Vitiello verificou, em 1975, a resposta sexual de 224 gestantes , casadas , com instrução de 2º grau. Os resultados foram obtidos através da investigação dos seguintes indicadores do comportamento sexual: desejo, freqüência coital, posição no coito, prazer, orgasmo, relação sexual iniciada pela gestante e satisfação sexual total. O desejo foi muito menor no primeiro trimestre do que no período pré-gravídicio. No segundo trimestre a diminuição não foi tão acentuada, mas a tendência com a evolução da gravidez foi de diminuição do desejo sexual, em relação ao período pré-gravídico. Nos três períodos , houve diminuição da freqüência coital, principalmente se comparada com o período anterior à gravidez, chegando em alguns casos até a abstinência na fase final do terceiro trimestre.
Quanto à posição no coito, a posição do homem superior à mulher foi relacionada freqüentemente como a posição mais usada antes da gravidez. As posições de lado e genopeitoral foram selecionadas como as mais utilizadas por um grande número de gestantes com a evolução da gravidez. O prazer foi significativamente menor do que aquele antes da gravidez, declinando com o avançar da gestação. Há uma evidente diminuição do orgasmo com a evolução da gravidez. O estímulo manual ou oral pelo marido foi técnica mais freqüentemente usada antes da gravidez e na fase final do ciclo gravídico. Nos outros períodos , o coito foi a técnica mais utilizada. Com a evolução da gestação, diminuiu a iniciativa da gestante de provocar a atividade sexual, enquanto o parceiro demonstrou esta atitude mais no terceiro trimestre.
Variáveis demográficas (idade, educação, raça e religião); sensações subjetivas às mudanças da imagem corporal; sensações sobre o bem-estar na gravidez; medo relacionado à gravidez; trabalho de parto; parto e resposta sexual feminina foram analisados para determinar a extens ão em que aquelas variáveis poderiam ser consideradas preditoras da satisfação sexual completa. As mulheres orgásmicas que apresentam satisfação com o estado gestatório anunciaram como "extremamente feliz" o relacionamento sexual; ao contrário das anorgásmicas .
A diminuição do interesse sexual mostrado pela maioria das mulheres durante o primeiro trimestre foi geralmente atribuída à sintomatologia apresentada: náuseas , fadiga e mastalgia, bem como medo de precipitar um abortamento.
É preciso considerar ainda a mudança no papel social e na identidade feminina o que muda o vínculo com o parceiro. Enfim, a gravidez encerra uma s érie de modificações que mexem com a pessoa, com seus circundantes e, em especial, com o parceiro e pai do filho que está a caminho.
Durante s éculos , sedimentou-se restrições ao sexo durante a gravidez. A vis ão de que o sexo deve ser destinado apenas para a reprodução não é questão meramente biológica, apregoando que o que fala mais alto é o instinto animal. Alem do mais a atividade sexual não se resume ao coito genitalizado com penetração e orgasmo, mas também compõe-se de carícias sexuais que podem ser estímulos vitais ao relacionamento conjugal e na futura relação com o filho.
A cópula tem sido repetidamente vista como possivel causa de abortamentos mas na verdade o coito realizado comedidamente não parece justificar essa assertiva e nesse aspecto o ato sexual equipara-se ao toque e ao exame especular cuidadoso.
Não se justifica nem se recomenda a abstenção completa para todas as grávidas , pois a importância do ato sexual, é muito variável nas diferentes uniões , e a proibição sumária pode trazer a paciente, ou ao casal, consequências diversas e inesperadas . Os conselhos , para serem úteis e obedecidos , devem ser adaptados a cada caso.
Não é aconselhável limitar as relações sexuais no primeiro trimestre, mas se for necess ário recomendar a abstenção em pacientes com antecedentes de aborto expontâneo ou interrupção prematura, assim como nas que exibem quadro de ameaça à gravidez em curso nada impede que carícias e mútua masturbação sejam mantidas .

Para os eventuais efeitos adversos do coito, principalmente atividade contrátil desencadeadora pelas prostaglandinas presentes no s êmen, aconselha-se o uso de preservativos .
Javert, por exemplo, não se contentava s ó em proibir o coito, e aconselhava prudentemente que o casal dormisse em camas separadas , quartos separados e até mesmo em casas separadas . Embora o mesmo autor assinalasse que em 250.000 mulheres , menos de 0,007 dos abortos aconteceram por causas traumáticas .
Em tese realizada no Mestrado em Sexologia da UGF em 1998 por Muniz da Silva, na qual foi estudada a sexualidade do casal grávido os parâmetros mais marcantes encontrados foram:
- A permanência do desejo, da excitação, do orgasmo e do prazer durante a gestação em homens e mulheres .
- Um aumento discreto na intensidade destes parâmetros nos homens e redução mais acentuada nas mulheres .
- Alto grau de dificuldade na avaliação do orgasmo feminino, antes e durante a gestação, tanto pelos homens como pelas mulheres .
- Número significativo de indivíduos com comportamentos discordantes das tendências classicamente atribuídas aos casais grávidos esperadas revelando a influência de fatores pessoais e singulares nos relacionamentos .
- Tanto os homens como as mulheres relataram desconforto com as modificações do corpo feminino, em especial o aumento do abdome, mas a "vergonha" antiga, muito relacionada à gestação, não se confirmou, e a barriga em crescimento não impediu significativamente a atividade sexual.
- O homem mostrou-se cuidadoso no exercício da sexualidade durante à gestação, mas não demonstrou receios , nem reduziu significativamente o desejo.
- As práticas sexuais modificam-se durante à gestação, mantendo-se o sexo oral e reduzindo-se o sexo anal.
- A maior parte dos casais acharam que as práticas sexuais podiam se manter até o final da gestação, mas s ó cerca da metade dos casais , mantém o coito até o 9º mês .
Os conceitos pessoais interagiram com os emitidos pelos costumes e pela sociedade. Observa a autora uma constante inter-relação, tornando o exercício da sexualidade dinâmico, mutante, particular e principalmente dominado pelo secreto da intimidade das pessoas .
O tema continua sendo objeto importante das pesquisas em sexualidade, posto que nos humanos o comportamento sexual resulta de uma interação complexa entre o determinismo físico e químico dos hormônios e mediadores neuro-endócrinos e as instancias ps íquicas da consciência cognitiva que nos diferencia dos demais animais .

Paulo Roberto Bastos Canella

 
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